LUCILÂNDIA MARIA BEZERRA*, SOLANGE ALVES OLIVEIRA
* Médica Veterinária, CEULP/ULBRA, Centro Universitário
Luterano de Palmas- Tocantins. Responsável Técnica e Pesquisadora no Centro de
Convivencia e Educação Ambiental- Museu de História Natural- Criadouro
conservacionista do CEULP/ULBRA. Formada pela Universidade Federal de Goiás, ex-coordenadora
técnica do Parque Zoológico de Goiania-Goiás, especializanda em Clinica
médica de Pequenos Animais, pelo Quallitas em Goiânia-Go
RESUMO
Várias foram às alternativas utilizadas por Médicos Veterinários e Biólogos na criação e manutenção de filhotes silvestres, de várias espécies de aves, répteis e mamíferos, que por algum motivo ficaram órfãos durante o resgate de fauna da UHE-Luis Magalhães, no período de dezembro de 2001 a julho de 2002. Para cada espécie foi desenvolvido um manejo diferente, que pudesse mantê-lo o menos estressado possível e em condições de sobrevivência adequada a espécie.
1 INTRODUÇÃO
O manejo da vida silvestre em diversos locais da América Latina está sendo desenvolvido dentro de uma estratégia realista que tem a finalidade de promover a conservação da diversidade biológica. Realmente, o aproveitamento dos recursos animais é parte da definição de manejo da vida silvestre (Pádua, V. C. / Bodwer, E. R., 1997).
O encontro sobre manejo da vida silvestre para a conservação na América Latina, realizado em Belém, em março de 1992, abordou o manejo atualmente aplicado a espécies nativas da Fauna Tropical da América Latina e enfocou a utilização do manejo da vida silvestre para o aproveitamento sustentável, focalizando também a controvérsia existente entre manejo da vida silvestre em cativeiro e em áreas naturais.
O manejo de populações silvestres é a intervenção na população–alvo, visando propósitos definidos. Segundo Caughley, 1977, os propósitos de manejo de populações silvestres podem ser resumidos em três questões básicas: tratamento de populações pequenas ou em declínio visando aumentar sua densidade e/ou área de distribuição, uso econômico sustentado da população ou taxa de crescimento inaceitavelmente alta, visando estabilizar ou reduzir sua densidade.
Embora os levantamentos populacionais sejam uma poderosa ferramenta para a tomada de decisão, é importante notar que eles não são suficientes para definir o propósito de manejo adequado para cada caso. É uma decisão humana, se as populações silvestres devem ter muitos ou poucos indivíduos, e as forças que atuam na sociedade humana é que vão determinar o propósito de manejo dessas populações.
Os animais domésticos nascem em um estado de dependência, com mecanismos homeostáticos pouco desenvolvidos, o desenvolvimento do sistema nervoso é feito progressivamente para regular a temperatura corporal e se eleva gradualmente. Os filhotes silvestres também se adequam a temperatura corporal gradativamente: no caso dos répteis, que são ectotérmicos, dependem muito da temperatura ambiental. Essas espécies, têm o processo digestório e a produção de anticorpos comprometida se a temperatura corpórea estiver abaixo da faixa considerada ideal para a espécie. O estresse é um fator muito importante para o sucesso de adaptação de qualquer espécie silvestre ao cativeiro. Todas sofrem muito com o estresse após captura ou resgate, ao ser manipulado por seres humanos: esse é um fato agravante pra todas as espécies silvestres que sofreram um impacto por estresse, seja quando se sentiu ameaçado, ou quando se sentiu apreensivo por algum motivo, ou frustado, sob contenção ou apreensão.
O estresse está conceituado como síndrome geral de adaptação, ou seja, um conjunto de reações sistêmicas não específicas que surgem quando ocorre exposição do organismo a agentes agressores. Está, portanto, intimamente relacionado com a resposta imune do indivíduo.
Nesse contexto, estudar uma maneira de manejar, especialmente filhotes órfãos que vão ser criados em instituições conservacionistas ou de pesquisa, é um desafio importante para todos os técnicos que se dedicam em preservar a fauna silvestre. O presente trabalho mostra o resultado de um sistema de manejo com filhotes órfãos adotados durante o resgate de fauna da UHE-Luis Eduardo Magalhães, Lajeado, Tocantins e que deu certo.
2 METODOLOGIA
Foram recebidos no setor de veterinária do Projeto Fauna em média, no período de dezembro de 2001 a abril de 2002, 40 mamíferos órfãos, 50 aves e 20 répteis; nas mais diferentes idades; a grande maioria estava na fase de amamentação e as aves ainda no ninho.
Todas as medidas de manejo profilático e alimentar foram tomadas, considerando a espécie atendida e sua condição física e psicológica (estresse), adaptando temperatura, fonte de luz, mamadeiras, mamães postiças, caixas ou gaiolas com decoração adaptadas para cada espécie; entretanto, apesar de todo empenho, notou-se que os filhotes não estavam se adaptando e acabavam morrendo, o que levou a equipe a repensar o manejo; foram adotados então os seguintes procedimentos: Aves: psitacídeos / filhotes / órfãos (papagaios); colocados em caixas plásticas, com jornal picado para facilitar a higiene, uma lâmpada de 40W, numa distância de 60cm de altura, num local separado. Alimentação à base de mingau de frutas, cereais e vitaminas, até a completa cobertura do corpo, por penas. Psitacídeos / filhotes / órfãos (araras); colocadas em caixas de madeira semifechada, com jornal picado, lâmpada de 40W a uma altura de 80cm, completamente separadas de outras espécies, manejadas exclusivamente por um funcionário. Alimentação à base de angu, a princípio pastosa e, posteriormente, mais endurecido, composto por cereais, vitaminas e frutas, até a completa cobertura do corpo, quando então foi introduzidas frutas em pedaços e grãos, gradativamente. Outras espécies de aves (pica-pau, gaviões e outros); foram colocados em pequenos “ninhos” adaptados a caixas, colocadas em gaiolas e alimentados inicialmente com vísceras maceradas (gaviões) e tenébrios macerados (pica-paus), mudando para alimento ao seu ponto natural à medida que iam crescendo. Mamíferos: filhotes / órfãos / primatas (prego, sagüi, guariba); recém-nascidos em diferentes fases da vida, foram amamentados
totalmente nas gaiolas, com mamadeiras com bicos especiais para cada espécie; as gaiolas foram especialmente decoradas com caixas, jornais picados e bichinhos de pelúcia para se agarrarem; as mamadeiras eram oferecidas através da grade da gaiola para os maiores e para os sagüis muitos pequenos, se pegava no bichinho de pelúcia e nunca no animal; a manipulação humana foi evitada completamente. Outros mamíferos (tamanduás-mirim, raposas-cinzenta e guaxinins) totalmente amamentados com mamadeiras especiais, sem tocar no filhote com as mãos, respeitando-se sempre os horários de alimentação: 4 vezes ao dia. Veados / caititus / filhotes / órfãos: os veados eram colocados em recintos separados com área protegida e ponto de refúgio com capim. Amamentados no início com a mamadeira diretamente oferecida no “ninho”, posteriormente pela grade do recinto. Os filhotes de catitus foram acondicionados em caixas de madeira, com capim no piso e amamentados dentro da caixa, sem tocá-los.


Figuras 1, 2, 3, 4: Mostrando os filhotes recém chegados e órfãos.
Figura 5: Os sagüis não suportam manipulação humana.
3 RESULTADOS
Com a introdução do manejo descrito acima o êxito foi de 100%, não ocorrendo mortes de filhotes órfãos.
4 CONCLUSÃO
As espécies silvestres apresentam, desde o nascimento, resistência orgânica e independência desenvolvidas muito precocemente, ao contrário das espécies domésticas: adaptam-se sem os pais desde cedo e ao convívio no seu habitat natural. Os seres humanos, por mais que tenham cuidado, não sabem , por exemplo, como segurar um filhote, como fazê-lo sentir-se confortável: é necessário que ele aprenda a fazer isso sozinho, mesmo que seja em um ambiente diferente; foi isso que observamos nessas espécies estudadas. Eles conseguiram se “adaptar” sozinhos. Hoje, muitos estão em instituições de pesquisas, zoológicos e outros no nosso próprio Centro de Convivência; outros, foram até readaptados para soltura, como os gaviões, pica-paus e guaxinins.
5 AGRADECIMENTOS
A toda equipe de funcionários do Projeto Fauna que se empenharam, diariamente, domingos e feriados, para salvarem muitas vidas. Aos dirigentes do CEULP/ULBRA que não mediram esforços para manterem confortáveis e bem alimentados todos esses filhotes.
6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DINIZ, M. S. L. Primatas em Cativeiro / Manejo e Problemas Veterinários. Ed. Icone: São Paulo, 1997. Páginas 24 – 25.
HOSKINS, D. J. Pediatria Veterinária. Ed. Manole Ltda., 1ª ed., 1993, páginas 21 a 23.
PÁDUA, V. C. e BODMER, E. R. Manejo e Conservação da Vida Silvestre no Brasil. CIP-Brasil – Soc. Civil Mamiramá, 1997.
PRIMACK, B. R. e RODRIGUES, E. Biologia da conservação. Londrina: Ed. Rodrigues, 2001. Páginas 65-66.