M. L. CRUZ 1,
S. P. L. LUNA 1,
J. R. S. JUNIOR 1,
P. IAMAGUTI 1,
A. CROCCI 1,
R. K. TAKA HIRA 1

O objetivo desse estudo foi comparar os efeitos fisiológicos e de bem-estar no pós-operatório de cães submetidos à osteossíntese de fêmur e tratados com flunixin, ketoprofeno, carprofeno, buprenorfina ou placebo durante sete dias. Foram avaliados os efeitos analgésico, sedativo, hemostático, endócrino, digestivo, cardiorrespiratório e renal, bem como a influência do uso de analgésicos na recuperação da cirurgia e complicações pós-operatórias. Visou-se, ainda, analisar a eficácia de diferentes métodos de avaliação de dor e sedação em cães submetidos à osteossíntese de fêmur.

 


INTRODUÇÃO


A injúria tecidual produzida pelo ato cirúrgico desencadeia uma reação inflamatória, com conseqüente aumento na liberação de prostaglandina, substância responsável pelo estímulo dos nociceptores (Kehlet, 1989). A dor pós-operatória resulta em alterações metabólicas, hormonais e desconforto para o animal (Popilskis et al., 1993), motivos pelos quais tem havido crescente preocupação ética no sentido de proporcionar o bem-estar animal.

Os primeiros fármacos a serem utilizados para combater a dor pós-operatória foram os opióides. Alguns trabalhos demonstram que os opióides promovem melhor analgesia no pós-operatório imediato do que antiinflamatórios não esteróides (AINES), porém com maior grau de sedação (Reid & Nolan, 1991; Lascelles et al., 1995).

O uso de AINES para analgesia pós-operatória tem aumentado nos últimos anos e sua analgesia pode ser equiperada, ou até ser superior, aos opióides em cirurgias ortopédicas (Nolan & Reid, 1993; Lascelle et al., 1994). Os AINES inibem a síntese de mediadores da reação inflamatória, tais como prostaglandina, tromboxano e prostaciclina, responsáveis pelo estímulo dos nociceptores (Kehlet, 1989).

Os AINES promovem alguns efeitos colaterais (Kore, 1990), tais como falência renal aguda (Mc Neil, 1992; Elwood et al., 1992), lesões no sistema digestório (Cruz et al., 1998), bem como inibem a agregação de plaquetas, aumentando o tempo de coagulação sangüínea (Kore, 1990). Por outro lado, os opióides apresentam como principal efeito colateral a depressão respiratória dose dependente, minimizada quando do uso de opióides agonistas parciais (Bovill, 1997).

A avaliação da dor pós-operatória em animais é subjetiva (Sackman, 1991), pois os animais não comunicam objetivamente a sensação da dor. Desta forma, a avaliação da mesma requer cuidadosa observação (Taylor & Houlton, 1984). Entretanto, somando-se as respostas comportamentais, hormonais e metabólicas (Kehlet, 1989), pode-se obter uma avaliação mais precisa.

Diante do exposto, o objetivo deste estudo foi comparar os efeitos fisiológicos e de bem-estar no pós-operatório de cães submetidos à osteossíntese de fêmur e tratados com flunixin, ketoprofeno, carprofeno, buprenorfina ou placebo durante sete dias. Foram avaliados os efeitos analgésico, sedativos, hemostático, endócrino, digestivo, cardiorrespiratório e renal, bem como a influência do uso de analgésicos na recuperação da cirurgia e complicações pós-operatórias. Visou-se, ainda, analisar a eficácia de diferentes métodos de avaliação da dor e sedação em cães submetidos à osteossíntese de fêmur.


MATERIAL E MÉTODO


Foram utilizados 30 cães saudáveis de diferentes raças, com idade entre quatro meses e seis anos, sendo 12 fêmeas e 18 machos com peso acima de 6 kg, os quais foram trazidos pelos proprietários ao Hospital Veterinário da FMVZ, Unesp, Campus de Botucatu, apenas para serem submetidos à osteossíntese unilateral de fêmur.

Os animais foram divididos aleatoriamente em cinco grupos de seis animais. Foram tratados com flunixin meglumine na dose de 1 mg/kg pela via oral (grupo FLU), ketoprofeno na dose de 2mg/kg SC (grupo KET), carprofeno na dose de 4 mg/kg SC (grupo CAR), buprenorfina na dose de 0,01 mg/kg SC (grupo BUP) ou 1 ml de solução fisiológica SC (grupo controle - CON). Todos os tratamentos foram realizados 1 h antes da tranqüilização e diariamente durante sete dias após a cirurgia, com exceção buprenorfina, que foi administrada a cada 12 h durante sete dias.

Os animais foram tranqüilizados com levomepromazina (1mg/kg IV), seguida pela indução anestésica com tiopental sódico (12,5 mg/kg IV) e a manutenção com halotano.

As avaliações de dor e sedação foram realizadas por dois veterinários em método cego e através de filmagens diárias. O grau de sedação foi avaliado através da escala análoga visual e através de escore, onde 0= bem alerta; 1= levanta-se quando estimulado; 2= reagia a estímulos mas permanecia em decúbito; 3= não reagia a estímulos. O grau de dor foi avaliado através da escala análoga visual e através de escore durante a extensão forçada do membro fraturado e a palpação no foco de fratura, onde: 0= sem dor; 1= leve desconforto; 2= reagia à manipulação com leve movimentação; 3= apresentava ganido, retirando o membro fortemente. O grau de claudicação através de escore, onde: 0= apoiava o membro normalmente; 1= apoiava o membro apenas durante a locomoção lenta, retraia em movimentos mais rápidos (corrida); 2= apoiava o membro apenas durante a estação, em movimento retraia e 3= não apoiava o membro. O grau de apetite foi graduado em 0= anorexia; 1= hiporexia; 2= normorexia. O ganho de peso (%), foi mensurado pela diferença entre peso inicial (antes da cirurgia) e final (sete dias após a cirurgia).

Outros parâmetros avaliados foram: concentrações plasmáticas de cortisol (radioimu-noensaio); agregação de plaquetas (agregômetro); tempo de coagulação sangüínea (Lee White); sangue oculto nas fezes; hemogasometria; volume minuto; freqüência respiratória e cardíaca; concentração de CO2 ao final da expiração; pressão arterial sistólica, média e diastólica; concentração plasmática de uréia; clearance de creatina; e temperatura. Bem como, o período necessário até a extubação, o momento do primeiro movimento espontâneo, o período e qualidade de recuperação anestésica, complicações pós-operatórias e período de consolidação óssea.

As avaliações foram realizadas antes da administração do analgésico ou placebo, no trans-operatório e uma, duas, seis e 12 horas após o término da anestesia e diariamente durante uma semana.


RESULTADOS E DISCUSSÃO

Não houve diferença estatística entre os cinco grupos em relação a idade, sexo, peso e tempo de fratura até a osteossíntese. Todos os animais do grupo CON e BUP apresentaram edema pós-cirúrgico, sendo este tratado com AINES, provavelmente ao potente efeito antiinflamatório destes fármacos (Nolan & Reid, 1993; Pibarot et al., 1997).

Durante o período pós-operatório, houve migração do pino intramedular em quatro animais do grupo CON, dois do grupo BUP, um do grupo KET e um do grupo CAR. Quando houve instabilidade no foco da fratura com o pino intramedular utilizou-se o fio de aço para melhor fixação. Não houve correlação de apoio do membro - grau de claudicação (Tabela 1) e peso animal com a migração de pino. Em contrapartida, o edema no membro fraturado estava presente em todos os animais que apresentaram migração de pino, o que provavelmente tenha contribuído para a migração.

O período de consolidação óssea médio é de 85 dias para cães com mais de um ano de idade (Piermattei & Flo, 1997). Este foi maior no grupo CON (133± 41 dias), seguida pelo grupo KET (114±130 dias), CAR (85±53 dias), FLU (70±31 dias) e BUP (70±33 dias), não havendo diferença estatística entre estes dados. Não houve correlação entre o tempo de consolidação óssea e a concentração plasmática de cortisol inicial, a idade, o local, tipo e tempo de fratura (p>0,05).

Apesar de ter havido diferenças significativas entre as médias do grau de dor e de sedação dos avaliadores 1 e 2, e através do vídeo, houve uma correlação (p<0,001) e concordância (p<0,05) significativa entre as três avaliações. A avaliação realizada por mais de um profissional é importante para diminuir a variabilidade entre os avaliadores (Nolan & Reid, 1991). A avaliação realizada através do vídeo evidenciou as diferenças de comportamento do mesmo animal nos diferentes dias, e também facilitou a comparação entre os animais, permitindo uma avaliação mais fidedigna.

Na mensuração da dor através da EAV, alguns sintomas de dor podem ser mascarados com sintomas de sedação, havendo necessidade de diferenciá-los (Lascelles et al., 1994; Lascelles et al., 1995). Motivos pelos quais utilizou-se também o método de escore (extensão do membro e palpação do foco de fratura), obtendo-se resultados mais conclusivos.

A sedação foi maior nos animais tratados com BUP a partir do primeiro dia de pós-operatório (Tabela 1), provavelmente devido ao efeito sedativo ocasionado pela ligação seletiva aos receptores m (Bovill, 1997).

O grau de dor pré-operatório não se correlacionou significativamente com o sexo, idade, raça, peso, dias de fratura, local de fratura, tipo de fratura e membro fraturado. A partir do primeiro dia após a cirurgia ficou evidente, por todos os métodos de avaliação de dor, que os animais do grupo CON apresentaram maior dor que os dos demais grupos (Tabela 1).

Redevet tabela

Alguns estudos demonstram que os opióides podem apresentar um melhor controle na dor pós-operatória imediata do que os AINES (Lascelles et al.; Pibarot et al., 1997), fato que não ocorreu neste estudo, sustentando os resultados de Nolan & Reid (1991) e Nolan & Reid (1993). Apesar de não ter havido diferença significativa, a partir do primeiro dia de pós-operatório o grau de analgesia dos animais tratados com FLU, CAR e KET foi superior aos animais pertencentes aos grupos BUP ou CON, corroborando com outros estudos (Nolan & Reid, 1991; Nolan & Reid, 1993; Lascelles et al., 1995; Pibarot et al., 1997).

Neste estudo a analgesia promovida pela buprenorfina foi considerada satisfatória, como em ratos submetidos à laparotomia (liles & Flecknel, 1993) e em cães submetidos a cirurgias ortopédicas (Taylor & Houlton, 1984). Entretanto, não foi eficiente em cães submetidos à toracotomia (Conzemius et al., 1994).

O apetite dos animais estava reduzido em todos os grupos antes da cirurgia, e somente no grupo CON manteve-se reduzido durante todo o período de avaliação. Neste experimento, animais que receberam buprenorfina obtiveram uma perda de peso mais amena (5,9%) do que os animais pertencentes ao grupo controle (21,7%), coincidindo com os resultados obtidos em ratos (Liles & Flecknell, 1993). Em contrapartida, os animais dos grupos FLU, CAR e KET apresentaram ganho de peso de 3,4 %, 4,95 e 5,6%, respectivamente, o que pode estar relacionado com o bem-estar promovido pelos analgésicos. Entretanto, segundo Fox & Johnston (1997), um possível efeito colateral do carprofeno é a redução de apetite.

As concentrações plasmáticas cortisol podem ser utilizadas para avaliar a dor pós-operatória em cães (Popilskis et al., 1993), pois demonstrou uma alta correlação entre dor e o cortisol.

O aumento da concentração plasmática de cortisol durante a cirurgia se deve provavelmente ao estresse promovido pela anestesia e cirurgia (Chernow et al., 1987).

De forma geral a partir do segundo dia após a cirurgia, a concentração plasmática de cortisol nos grupos CON e BUP foi maior do que nos animais tratados com AINES (Tabela 2 e Figura 1), provavelmente pelo estresse promovido pela dor. Embora no grupo BUP possa estar relacionado com a disforia ou por um efeito estimulatório direto na córtex adrenal ou hipotálamo (Fox et al., 1994).

Curiosidades

Contato

Dicas, opiniões, sugestões. Fale conosco.

redevet@redevet.com.br

Notícias

  • Brucelose - Enfermidade bovina

    A brucelose bovina é uma enfermidade que já causou muitos problemas e perdas econômicas em propriedades de todo o mundo, como queda da produção de leite, embora no momento esteja erradicada em grande parte dos países.

    Leia mais...  
  • O adeus de um herói: cão pioneiro em resgates no RS se aposenta após 13 anos

    Seu corpo não responde mais às exigências que o trabalho impõe. Suas pernas já não conseguem mais levá-lo sobre pilhas de escombros ou matas fechadas, terrenos que perambulava com destreza. A visão também não é mais a mesma. Mas o olfato permanece aguçado.

    Leia mais...  

Redevet facebook

O Redevet quer saber de você, envie suas sugestões.

Contato