Gustavo Farath Rondinoni*
CRMV: SP 13217

* Médico veterinário autônomo


1. Introdução

O comportamento animal é uma ciência ainda pouco difundida, principalmente aqui no Brasil porque as pessoas desconhecem a significante importância de saber como que o cão se comporta diante das inúmeras situações que ele enfrenta no seu convívio com a sociedade humana.

O comportamento é uma propriedade emergente da função do sistema nervoso e não pode ser facilmente explicado apenas com base nas propriedades dos neurônios individualmente ou mesmo nos conjuntos selecionados de neurônios. O comportamento é a expressão da soma de contrações musculares isoladamente e de secreções hormonais.

A ordem, o tipo, o momento e a quantidade relativa das contrações musculares e das secreções hormonais determinam que tipo de comportamento irá ocorrer. 10 Portanto, o comportamento é o resultado do modo como os vários subsistemas nervosos e hormonais interagem entre si e com o mundo externo e interno.

No caso da agressividade, poderíamos citar a interação do Sistema Límbico, que é abastecido de noradrenalina pelo locus ceruleus, e em relação à neuroanatomia, a amigdala cerebral que pode ser estudada para o entendimento do medo , da ansiedade e das fobias, incluindo a agressividade.

Devemos lembrar também do papel da serotonina no comportamento agressivo, pois, a maioria das desordens no metabolismo deste hormônio, estão presentes nos diversos problemas de comportamento.

É importante saber que as desordens do comportamento são provocadas por alterações em várias situações, como por exemplo alterações físicas que provoquem dor, alterações neurológicas como uma neoplasia cerebral, alterações fisiológicas, e ainda podem ser provocadas, e na maioria das vezes são, pela genética, no caso da hereditariedade e pela pequena e às vezes nenhuma compreensão das pessoas sobre a natureza canina.


 

2. Objetivos

O objetivo do trabalho é mostrar que os cães não são humanos. É mostrar que eles têm necessidades e comportamento próprios e que por causa do desconhecimento que as pessoas têm em relação à isto, entram em conflito com seus cães no que diz respeito ao seus relacionamentos provocando os problemas de comportamento, tornando esta convivência desagradável e no caso da agressividade, perigosa. Será discutido também os diferentes tipos de comportamento agressivo e seus tratamentos, incluindo a modificação do comportamento através de exercícios, a castração e o uso de drogas.


3. O Vínculo Homem-Cão

O vínculo homem - cão, como é visto hoje, é uma moderna manifestação de um importante e incomum evento que aconteceu há mais de 11000 anos na região da Caverna Shanidar no Iraque. Este evento foi a domesticação do cão. O estabelecimento do vínculo homem-cão firmou o caminho para um processo que tem desde então, provido os seres humanos com uma vasta variedade de produção de alimentos, transporte e animais de companhia. 1
O entendimento das mudanças nos cães e nos seus relacionamentos com seres humanos durante os primeiros mil anos de contato é pertinente a um número de aspectos problemáticos do vínculo homem-cão como é visto nos dias de hoje em nossa sociedade. Estes aspectos incluem os problemas com mordidas de cães, os quais se relacionam com a agressividade fisiológica, patológica e hereditária. 1

3.1. A Domesticação e Dispersão dos Cães Primitivos

Inúmeros informativos resumem a domesticação do cão no Oriente Médio e dão detalhes do desenvolvimento do relacionamento entre seres humanos neolíticos e o Canis sp selvagem daquela região. A maioria destes cenários de domesticação sugere uma ou mais subespécies do lobo no sudoeste asiático (C. lupus pallipes, C. lupus arabs) como os canídeos que provavelmente se envolveram neste processo, e sua posição é geralmente mantida por material arqueológico disponível. Entretanto, este contato inicial foi seguido pela rápida dispersão destes seres humanos primitivos e seus "cães-lobos" para fora do Oriente Médio, se movendo para o sul em direção a África, e para o leste, atravessando a Índia em direção ao sudoeste asiático, e existem poucos materiais arqueológicos úteis disponíveis nestas regiões. 1

Deste modo, existe uma notável carência de informações sobre as características destes cães-lobos precocemente domesticados e sobre seu relacionamento durante o desenvolvimento do vínculo homem-cão. 1

As raças caninas como são conhecidas por nós só vieram a se estabelecer de maneira organizada há aproximadamente 200 anos. Mas antes disso o homem já selecionava cães para funções específicas. 13

Cães de luta foram selecionados para atacarem rápida e inesperadamente sem aviso, terem um baixo limiar a estímulos que desencadeassem o ataque, alto limiar para dor (menor sensibilidade à dor), perderem o reconhecimento de sinais de submissão que interromperiam o ataque e finalmente foram muitas vezes selecionados para lutar até a morte. Assim é muito comum que pessoas atacadas por cães digam não ter visto nenhum aviso por parte do cão. 13

A base genética da agressão pode ser demonstrada se compararmos a agressividade dos animais domésticos e dos selvagens os quais descendem. Como exemplo, podemos citar a domesticação do lobo transformando-o em cão. Neste caso, foi o interesse pela facilidade de manejo que levou o homem primitivo, geração após geração, a escolher como reprodutores os animais mais dóceis.

Em outros casos, a seleção humana se dirigiu no sentido de produzir animais mais ferozes, demonstrando aí também a base hereditária da agressividade. 9 Uma vez que na matilha, é o cão dominante que tem, entre outras funções, o papel de guarda do território e defesa dos membros da matilha. Para que o cão cumpra esta função, ele deverá impedir que estranhos à família (matilha) se aproximem ou invadam seu território. 13

Para entender melhor o comportamento natural dos cães em seu sistema social, devemos conhecer como funciona a organização social dentro da matilha, bem como a liderança de grupo, a qual compreendem os comportamentos de dominância e de submissão, pois a incompreensão que a maioria dos donos de cães possuem em relação à natureza canina é o que provoca, muitas vezes, o comportamento agressivo do animal.


4. A Matilha e seu Líder

Os cães são animais predadores que vivem em grupos familiares extensos, possuindo uma complexa organização social. 11 Eles, mesmo após muitos anos de domesticação, ainda possuem todos os instintos que seus antepassados precisaram para sobreviver até hoje, como a sobrevivência na natureza, a proteção e o afeto com os companheiros.

Estudos de comportamento dos lobos e cães selvagens indicam que a agressão e a violência são exceções; brigas acontecem somente em último caso. 2 Isto porque quando os cães brigam realmente, eles se machucam, e qualquer membro da matilha debilitado diminui as chances de sobrevivência do grupo. 11

Cães e pessoas podem viver juntos porque possuem sistemas sociais parecidos. Neste sistema, existe um grande cuidado dos pais para com a prole, é usada a comunicação vocal e não-vocal, e é baseado em consideração, não violência física e controle. 2

Pelo fato de cães e pessoas terem estruturas sociais parecidas, nós nos familiarizamos com muitos sinais caninos. Isto se torna um problema, pois as pessoas assumem que os sinais caninos são exatamente como os nossos. 2

Sem a consciência de que somos diferentes, entramos em disputa com os cães e acabamos ficando nervosos ou frustrados com suas reações. Esperamos que os cães queiram o que queremos, que sintam como nos sentimos e, ainda pior, que pensem como nós pensamos. 11

Na matilha existe uma hierarquia relativa de estruturas de regras sociais e a posição do animal no grupo pode ser afetada pela idade, composição sexual do grupo social e por uma habilidade individual. 2

Por causa destas regras sociais existe um líder entre os cães da matilha, um cão que por suas habilidades ou força, irá conduzir ao demais. O líder impõe respeito através de sinais e atitudes. O tempo todo os animais recebem e passam informações uns aos outros a respeito de quem é o dominante e de quem é o subordinado. 11

Para os cães a hierarquia é obrigatória, e isto é muito importante para eles, portanto, cada cão sabe exatamente qual é o seu lugar dentro do grupo e se testam constantemente para saber quem é o líder, pois ser o líder da matilha significa proteger os demais membros e impor as regras para que o grupo prospere.


4.1. O Comportamento Dominante

Para o cão, a nossa família e os membros a qual ela é composta, inclusive ele, é a matilha, seu grupo social, e é claro que como todo cão, sempre tentará ser o membro dominante. Para isto acontecer, o cão irá testar todas as pessoas que vivem com ele exibindo comportamentos dominantes que muitas vezes irão passar desapercebidos pelo resto do grupo.

Por exemplo, alguns proprietários acham que o cão está dando um abraço neles quando coloca suas patas em seus ombros. Isto não é um abraço, é um desafio. Na comunicação entre cães, subir em outro cão com as patas da frente é um claro desafio. Acariciando cães no momento em que estão sendo desafiados, os donos, sem saber, "perdem" para eles. 2

Outros comportamentos exibidos pelo cão como ficar deitado em frente a uma porta, evitando que seu dono passe através dela; sempre querer andar na frente da pessoa em qualquer lugar que ela vá; se apoiar ou colocar a pata sobre o dono insistentemente em todas as oportunidades que ele tiver, definem bem o comportamento dominante e a constante disputa pela liderança do grupo que ele vive.

4.2. O Comportamento Submisso

Um cão submisso sabe qual é o seu papel na família e que este, com certeza não é o de líder. Por exemplo, cães que se apóiam sobre pessoas pedindo atenção não endurecem o corpo, abrem os olhos e acompanham a pessoa para que sejam tocados ou apoiados novamente. Cães buscando por intimidade, normalmente respondem com sons e depois pedem (mexem a cabeça lateralmente, rolam, emitem sons engraçados, balançam o rabo, colocam as orelhas para trás). 2

É importante entender que um cão submisso não é um cão triste, desprezado e medroso. Se na hierarquia familiar o cão ocupar o lugar mais inferior, ele não ficará desapontado, pelo contrário, ele respeitará a sua posição e viverá muito feliz, pois os cães são tão felizes sendo o membro mais subordinado da família quanto sendo o membro mais dominante. 4



5. Tipos de Agressividade

A agressividade é um sinal comportamental comum e que raramente tem origem exclusivamente orgânica. Na natureza, de acordo com a situação em um determinado momento, o cão exibe diferentes tipos de agressão.

O comportamento agressivo é todo aquele que tem como objetivo intimidar ou machucar uma pessoa ou um outro animal. 11

Para os cães que têm comportamento agressivo grave que possa comprometer a integridade física dos membros da família e de outros cães, é indicado o tratamento medicamentoso com o intuito de auxiliar o processo de modificação do comportamento.

Sendo assim, podemos dividir a ocorrência do comportamento agressivo em grupos e relacionar cada um deles com diferentes tipos de situação.

5.1. Agressividade ao Dono

Em relação ao dono e aos membros da família, o cão pode apresentar tipos de comportamento agressivo que podem estar divididos em: agressividade relacionada ao medo e a agressividade relacionada a crianças. 12

5.1.1. Agressividade Relacionada ao Medo

Este é um tipo de agressividade bem comum e bastante perigoso. Cães que são reprimidos por seus donos através de punição física têm grandes chances de começarem a atacá-los para se defender.

Filhotes que são mal socializados ou que apanham podem ficar traumatizados e, ao se tornarem adultos e se depararem com uma situação aparentemente ameaçadora, como por exemplo o dono vir em sua direção para abraçá-lo, o comportamento agressivo relacionado ao medo virá à tona e o cão atacará seu dono.

Cães que apresentam este distúrbio comportamental são muito ansiosos, não pedem por carinho e preferem ficar isolados.

É natural e adaptável para os cães sentirem medo de estímulos estranhos e apresentarem uma agressividade relacionada a este medo para que o estímulo responsável pelo medo ou ansiedade vá embora. 4 Portanto, o processo de socialização deve ser muito bem feito para habituar o animal a estímulos que normalmente desencadeiam o medo como aspirador de pó, cortadores de grama, ciclistas, trovões, automóveis e hospitais veterinários. Mas o mais importante para que o cão não demonstre agressividade é nunca usar de agressão física para puni-lo.

5.1.2. Agressividade a Crianças

Os cães também podem apresentar agressividade relacionada às crianças. Alguns cães reagem agressivamente somente com crianças, pois as crianças estão no mesmo nível de visão (altura) dos cães e seus olhares fariam o cão achar que elas estariam encarando-os sendo isto percebido como uma ameaça, fazendo com que os cães tomem uma atitude defensiva. 2

A tendência em atacar (crianças) está mais relacionada à reatividade do que a outros tipos de agressividade, e raças pequenas são quase sempre mais reativas que raças maiores. Portanto, raças pequenas não são muito apropriadas para famílias que possuem crianças pequenas. 4

Se um cão jovem aparenta ter medo de crianças, elas devem ser apresentadas ao cão de uma maneira tranqüila. Quanto mais velho for o cão, mais difícil será o processo de habituação.

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