1- DEFINIÇÃO
O hiperadrenocortiscismo é um distúrbio do cão, associada com taxa excessivas de glicocorticóides endógenos ou exógenos, caracterizada por poliúria e polidipsia; alopecia simétrica bilateral; pele adelgaçada e hipotônica; e redução da musculatura esquelética (KIRK & MULLER, 1985).
Segundo ETTINGUER, 1996, em 1.932,0 Dr. Harvey Cushing descreveu 12 seres humanos com distúrbio por ele sugerido como resultante de basofilismo pituitário. Um cuidadoso estudo destes e de casos posteriores em seres humanos, sugere múltiplas causas para esta síndrome. O epônimo "síndrome de Cushing" é expressão inclusiva em referência à constelação de anormalidades clinicas e químicas resultantes da exposição crônica a excesso de glicocorticóides. O epônimo "moléstia de cushing" se aplica àqueles casos de síndrome de Cushing em que o hipercortisolismo é secundário a inadequada secreção de adrenocorticotropina (ACTH) pela pituitária (hiperadrenocorticismo pituitário-dependente, HPD). A síndrome de cushing canina (SCC) também tem diversas origens fisiopatológicas, mas todas têm um denominador comum: concentrações aumentadas de cortisol circulante.
Uma classificação fisiopatológica nas causas de SCC deve incluir a hiperplasia adrenocortical devido a tumor pituitário produtor de ACTH em excesso, ou o excesso de ACTH resultando de distúrbio hipotalâmico, moléstia adrenal devida a carcinoma ou adenoma adrenocortical, e causas iatrogênicas como excessiva administração de ACTH (raro) ou medicação excessiva por glicocorticóides (comum).
1.1-Glândulas Adrenais
A primeira descrição anatômica das glândulas supra-renais (adrenais) foi feita por Eustachius em 1563 (figura 03). A importância funcional destas glândulas foi demonstrada inicialmente por Addison em 1855. As glândulas adrenais são um par de órgãos endócrinos compostos e achatados, localizados no tecido retroperitoneal ao longo dos pólos craniais medianos dos rins. Um corte transversal macroscópico de uma glândula não corada mostra que ela esta constituída de um córtex que é diferente da medula. Córtex apresenta-se cor-de-carne, creme ou amarelo-brilhante dependendo de seu conteúdo lipídico. As adrenais de ruminantes e de suínos têm cor-de-carne por causa do seu pequeno conteúdo lipídico. No cavalo, no cão, no gato e na galinha o córtex é creme ou amarelo-brilhante devido ao seu elevado conteúdo lipídico. A medula tem cor marrom-avermelhada por causa da presença de abundância sanguínea nas veias medulares. Embriologicamente cada glândula tem uma dupla origem e, na realidade, contém duas glândulas endócrinas combinadas dentro de um envoltório constituído por uma cápsula de tecido conjuntivo. O córtex tem origem mesodérmica, enquanto que a medula é derivada do tecido ectodérmico cromafim. Após este desenvolvimento ocorre uma migração de células que invadem o primórdio do córtex e se diferenciam em medula, constituindo esta porção recém-formada e a cortical um só órgão, que logo é envolto por uma cápsula de tecido mesenquimatoso (GETTY, 1986).
Segundo o mesmo autor, células cromafins da medula das adrenais migram da crista neural no período em que os gânglios simpáticos estão se formando. Algumas destas células, em vez de se diferenciarem em células nervosas, diferencia-se em células glandulares da medula das adrenais capazes de produzir secreção interna (adrenalina). A cápsula das glândulas adrenais é constituída de tecido conjuntivo denso disposto irregularmente. É rara a ocorrência de trabéculas que partem da cápsula e penetram o parênquima cortical até à medula. Quando tais trabéculas ocorrem, as células corticais são vistas, envolvendo-as na medula. A trama intersticial do córtex e da medula consiste em tecido conjuntivo areolar reticular. O córtex apresenta, microscopicamente, três zonas celulares distintas, chamadas zona glomerular, zona fascicular e zona reticular. A zona glomerular (multiforme) é uma zona celular subcapsular estreita que se caracteriza pela presença de cordões enrodilhados ou grupos de células.
A zona reticular está constituída de células menores, mas semelhantes àquelas encontradas na zona fasciculada. As células dispõem-se em cordões celulares irregulares, anastomosados entre si, que seguem um padrão reticular. Os sinusóides estão situados entre os cordões celulares. Esta zona é considerada como fonte de hormônios sexuais masculinos e femininos (GUYTON, 1997).

FIGURA 1 - Visualização da glândula adrenal em abdômen de um cão (seta)
FONTE: BOYD, 1996